Milagres da nanotecnologia

08/03/2008 15:01

Milagres da nanotecnologia

Yanna Guimarães
da Redação

A nanotecnologia está revolucionando vários conceitos em diversas áreas. Parece milagre, mas ela torna reais produtos que, até recentemente, pareciam ser ficção científica. Meias que evitam o chulé, raquetes de tênis ultraleves e roupas e sapatos que não molham


 

Tênis com nanotecnologia, comprado no Japão, tem propriedades hidrofóbicas, isto é, não molha (Foto: EDIMAR SOARES)
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Tênis com nanotecnologia, comprado no Japão, tem propriedades hidrofóbicas, isto é, não molha (Foto: EDIMAR SOARES)

Um futuro que a maioria das pessoas achava que era distante, está mais próximo e real do que muitos pensam. Meias que evitam o chulé foram lançadas recentemente no Japão. Máquinas de lavar roupas com antifungicida estão sendo comercializadas em Londres. Tudo possibilitado pelas nanopartículas de prata. O que? Calma, calma. Parece complicado, e é, mas dá para entender. Quando determinado material está dividido em tamanho nanométrico (um bilionésimo do metro), ele pode adquirir uma propriedade que não tinha antes, quando estava em tamanho maior. Por exemplo, a prata, em nanopartículas, adquire propriedade antifungicida, evitando o cheiro ruim causado pelo suor.

O professor Antônio Gomes Souza Filho, do departamento de Física da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que, quando o tamanho e a morfologia (forma) induzem o aparecimento de novas propriedades em um determinado material, o trabalho passa a ser desenvolvido no campo da nanotecnologia ou nanociência. "O tamanho em si, não é parâmetro para definir se é nanotecnologia. Nem tudo que é nanométrico é nanotecnológico. Isso só acontece quando há mudança na propriedade". Nanopartículas sempre existiram, assim como as propriedades dos materiais neste tamanho. O problema é que antes não havia equipamentos que possibilitassem a manipulação dessas partículas. "Isso tudo se deu graças a invenção do microscópio eletrônico".

A nanotecnologia já chegou à vida cotidiana e muita gente nem imagina. Cerca de 500 produtos já estão disponíveis no mercado. E as possibilidades só crescem. Você sabia que os iPods e os pen drives são feitos com nanotecnologia? E que já existem raquetes de tênis disponíveis no mercado feitas com nanotubo de carbono, materiais ultraleves e ultra-resistentes, que também estão sendo usados em alguns tecidos? Mas não é só isso.

Tintas, janelas, roupas e sapatos altamente hidrofóbicos, ou seja, que não molham. Nem mesmo o chocolate escapou da nanotecnologia. "O tamanho das partículas mexe nas propriedades físicas. Quando o chocolate é colocado na boca, a temperatura dele tende a ficar igual ao do seu corpo. Você põe na boca e ele (o chocolate com nanotecnologia) derrete, não precisa mastigar", destaca o professor Gomes.

Remédios
Na área farmacêutica, conforme o professor Odorico Moraes, do departamento de Farmacologia da UFC, a nanotecnologia vai proporcionar a diminuição dos efeitos colaterais dos medicamentos. "Nanoestruturas permitirão que o medicamento haja apenas nas células doentes. Assim, o fármaco vai ter especificidade de atuação". Os medicamentos ainda estão em fase de testes, mas os cosméticos desenvolvidos a partir da nanotecnologia já estão sendo comercializados. O professor Gomes enfatiza que a formulação nano libera o princípio ativo dos cosméticos de forma controlada e demorada, o que faz com que os produtos tenham maior duração e eficácia. Mas, se a nanotecnologia está tão presente na nossa vida, porque muita gente não sabe que ela existe?

Embora ainda sejam pouco vistos no Brasil, os produtos feitos a partir da nanotecnologia são realidade no exterior. "O problema é que o benefício proporcionado não é visível", afirma Gomes. As previsões para este ano revelam que 31% do mercado está nos materiais em geral. Os eletrônicos têm 28% e a área farmacêutica é responsável por 17% do mercado.

Para se ter uma idéia de como estão as pesquisas no mundo, em 2005, foram gastos US$ 9 bilhões em pesquisas sobre nanotecnologia. Até o fim de 2008, a previsão é que se invista US$ 28 bilhões e, até 2015, US$ 1 trilhão. "Os efeitos da nanotecnologia não vão ficar visivelmente estampados para as pessoas que vão usar. Não é na aparência, mas na função dos produtos. Essas propriedades nano sempre existiram. Ferramentas para visualizar e interagir com esse mundo é que fizeram a diferença".

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